"Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro." (Clarice Lispector)

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

WILHELM REICH

Breve Biografia
Wilhelm Reich (1897- 1957) foi médico e psicanalista austríaco, desempenhou desde 1920 um papel importante na sociedade psicanalítica de Viena, onde se distinguiu pelo seu engajamento no Partido Comunista Austríaco. Procurou desenvolver experiências de higiene sexual na classe operária de Viena e depois em Berlim. Recusando a hipótese da pulsão de morte, concebeu a neurose como um conflito entre a pulsão sexual e uma sociedade autoritária que a reprime. Privilegiou, em relação à sexualidade, aspectos referentes à fisiologia do orgasmo e seus obstáculos e acabou por considerar a libido como uma energia cósmica, criando a teoria orgônica. Em 1934 foi expulso tanto da Associação Internacional de Psicanálise como do Partido Comunista. O nazismo obrigou-o a emigrar primeiro para a Suécia, depois para a Noruega e, finalmente, para os Estados Unidos. Iniciou em 1939 suas pesquisas sobre a energia orgônica, cuja estagnação no organismo seria responsável pelas afecções psíquicas e somáticas, como o câncer. Essa teoria deu origem à bioenergética . Acusado de fraude por haver comercializado caixas supostamente acumuladoras de energia orgônica, Reich foi detido e morreu de ataque cardíaco enquanto aguardava julgamento na prisão.

Psicologia de Massas do Fascismo
O Fascismo para Reich - “é a expressão da estrutura irracional do caráter do homem médio, cujas necessidades biológicas primárias e cujos impulsos têm sido reprimidos há milênios”.

O FASCISMO AINDA É UM FENÒMENO ATUAL. POR ISSO DEVEMOS COMPREENDÊ-LO E SÓ ASSIM PODEREMOS COMBATÊ-LO. É NECESSÁRIO COMPREENDER OS PROBLEMAS DA VIDA.

Reich queria responder as seguistes questões:
1. Como puderam as massas empobrecidas alinharem-se à um discurso completamente contrário aos seus próprios interesses?
2. Como Hitler foi mais eficiente do que o Partido Comunista em alcançar uma vasta audiência, considerada antes disso, apolítica?
O primeiro ponto de análise de Reich é a clivagem entre a situação econômica e a situação ideológica do trabalhador. Para ele, é fruto da estrutura de caráter do homem médio, cujo principal fator associado é a repressão sexual. Gestada há milênios por uma sociedade patriarcal, atende de forma eficiente aos interesses da ideologia imperialista.



Os revolucionários colocam em dúvida as idéias de Marx sobre os processos sociais.

Motivo: o desenvolvimento do fascismo, sobrepondo-se ao movimento socialista revolucionário.
Era necessário um movimento subjetivo (ideologia das massas / perceber a estrutura do caráter das massas), não bastavam reclamações e o enaltecimento da fome e das necessidades, outros com a igreja, já o faziam.
Para Marx é preciso “ir à raiz das coisas”, perceber as contradições. Só assim podemos vencer os movimentos reacionários.
Paradoxo: milhões de trabalhadores de países industrializados estavam na miséria e, ao contrário do esperado, ocorre o crescimento do fascismo e o retrocesso do movimento dos trabalhadores.

Estrutura Econômica e Ideológica na Alemanha
A falta de consciência de responsabilidade social ou “consciência de classe” como diria Marx, implica no agravamento da posição social do fascismo (movimento de reação política).

Como a Psicologia de Massa vê o problema
A situação econômica e ideológica não coincidem. E não são equivalentes a consciência política. Sendo sim, um impeditivo à revolução social.
A psicologia reacionária dará explicações irracionais para esses fatos. A psicologia social irá se preocupar em buscar explicações sobre por quais motivos nem todos roubam para comer ou fazem greve por serem explorados. Porque alguns resistem e outros não?
O que justifica a contradição ou as condutas irracionais das massas, para a psicologia de massa, é o que se chama de tradição. O que precisamos descobrir não é o que faz a massa AGIR, mas o que a INIBE. Isso é resultado do desconhecimento das ideologias ou da estrutura de caráter das massas (tradições).
É importante reconhecer que o trabalhador médio trás em si uma contradição: sua estrutura psíquica resulta tanto de sua situação social (o que até poderia vir a ser revolucionário) como da atmosfera da sociedade.
A questão para Reich é justamente compreender a clivagem que se dá entre a ideologia e a economia. A contradição entre as tendências revolucionárias e as tendências reacionárias (misticismo / forças psíquicas conservadoras / tradição).


A Função Social da Repressão Sexual
Porque os homens se submetem a exploração e a humilhação moral?
Segundo Freud o código moral não tem origem divina, provém dos pais ou cuidadores, já na infância.
Analisou a sociedade como se esta fosse um indivíduo e nos trouxe a possibilidade de compreender melhor a realidade, visto que tornou possível a compreensão da natureza da estrutura do homem.
A repressão e o recalcamento sexual não são uma questão da cultura, mas de ordem social. Surge com o patriarcado autoritário e com as divisões de classe. Assume-se assim a família e os casamentos patriarcais. A religião nega o sexo e os desejos são erradicados. Acaba-se a pouca felicidade que ainda havia.
A família patriarcal autoritária funciona como uma pequena fábrica onde as estruturas e as ideologias do Estado são moldadas, depois, vem a religião.
A criança, reprimida sexualmente, e portanto com o impulso vital associado ao medo, deve aprender a se adaptar, como um ensaio para o que virá depois. É assim produzida a estrutura autoritária no homem. Uma criança medrosa, tímida, submissa, obediente, “boa” e “dócil”. Como o impulso vital está associado ao medo, qualquer força de rebelião é paralisada (pensamento e espírito crítico). O homem obedece, apesar do sofrimento e humilhação. O resultado desse tipo de criação (família como antecessor) é a mentalidade reacionária.
A mentalidade reacionária, fruto deste processo resulta em conservadorismo e medo de liberdade. As tradições gritam mais alto que as pressões econômicas.
Logo, o problema da psicologia de massas é a ativação da maioria passiva da população, que contribui com o movimento reacionário. É preciso eliminar as inibições que impedem o desenvolvimento do desejo de liberdade, proveniente da situação econômica e social.
O êxito sobre a psicologia de massas se dá através de uma ideologia que encontre eco em uma ampla camada de indivíduos, através da ênfase sistemática e constante de um objetivo final.

A estrutura familiar e o fascismo
Porque o fascismo é um fenômeno típico de classe média-baixa?
A classe operária não teve tanta influência do patriarcado, o fato das mulheres também precisarem trabalhar levou a uma classe menos autoritária. O que não aconteceu com a classe média-baixa.
A estrutura familiar patriarcal e autoritária é reforçada pela religião e pelo misticismo.

A solução para Reich está na economia sexual, ou seja, em suprimir as repressões sexuais e romper os laços infantis em relação aos pais.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

O Lixo Extraordinário

Um filme surpreendente, sensível, comovente.
Poderia, na minha opinião, chamar-se “Possibilidades”.
Somos seres de possibilidade, precisamos nos permitir ver, exercitar o olhar para o outro e perceber que além do aparente material (como em uma tela) existe histórias, vidas. Vik Muniz nos proporciona uma série de entendimentos, naturalmente colocados para quem estiver atento e afinado com a mensagem que aquele povo nos fala, grita e por fim, faz arte.
Uma idéia que, me parece, começa simples, despretenciosa, alheia ao humano. Apenas um cenário não usado pela arte da fotografia, pelas artes plásticas. Fotografar e criar em cima do lixo, do fim da linha. Mas somos todos surpreendidos por um excesso de “gente”, que sente, que ri, que sofre intensamente. Alguns se permitem tocar e passam a fazer parte de um projeto que mudaria para sempre suas vidas, tornam-se personagens principais e não meros coadjuvantes de uma obra, vista pelo mundo. Retomam a dignidade perdida e já podem mostrar ao mundo que existem e que se orgulham do que são.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Sociedade de Consumidores - Reflexão

Reflexão - livro “Vida para Consumo” - Bauman, Zygmunt.
Capítulo 2 – Sociedade de Consumidores

Temos aqui uma descrição da passagem da sociedade dos produtores para a sociedade de consumo e os impactos produzidos pela pós-modernidade neste dito consumo.
Saímos de uma sociedade onde o valor estava na produção, ocupávamo-nos da administração de corpos, para que pudéssemos viver e agir no nosso habitat, ou seja, a fábrica ou o campo de batalhas. Pretensamente evoluímos para uma sociedade que promove e reforça um estilo de vida voltado ao consumo e isso é condicional. Nos ocupamos da administração do espírito, exercendo sobre o indivíduo uma pressão, desde sua infância e ao longo de sua vida, nosso habitat passa a ser o shopping center e as ruas onde expomos o que compramos e assim valorizamos os produtos aos olhos do público.
Fomos transformados em consumidores e em produto a ser consumido, ou seja, Bauman conceitua que o objetivo crucial do consumo na sociedade de consumidores não é a satisfação das necessidades ou desejos, e sim a elevação da condição de consumidor à de mercadoria vendável. Para isso precisamos ser atuais, adaptáveis, treinados e valiosos, só assim seremos mercadorias “de demanda”. Ser objeto de consumo torna-se condição para tornar-se sujeito.
Assim, a valorização do corpo e a cultura imediatista impera sob o medo de tornar-se desprezível e posto à margem da sociedade. Esse medo, transpõe a razão dos indivíduos que tudo fazem para livrar-se do mal-estar.
Interessante perceber como o status da liberdade individual se modificou: antigamente desejávamos a chance de momentos de liberdade individual, tão regrada era a vida diária. Atualmente buscamos nos desprender justamente do fardo e angústia da individualidade, buscando atividades em grupo. Porém, as alternativas de escape devem ser controladas, ou seja, devem ter hora marcada para terminar. Queremos mas não suportamos por tanto tempo o grupo, precisamos nos certificar a todo tempo, que somos um EU conciso e privilegiado.
Breve conclusão:
Imersos nesta sociedade capitalista, que investe incessantemente em nosso desejo, devemos encontrar formas de resistências sutis, que nos levem a outros cenários onde não sejamos tão subordinados e ausentes da vida.
Nosso objetivo deverá ser oferecer aos indivíduos, nossos pacientes, outras metas, outras iniciativas capazes de mobilizar paixões diferentes daquela do consumo, para que ele não tenha um efeito devastador sobre a nossa natureza.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

A psicologia newtoniana

Reflexão - A psicologia newtoniana

Capra no livro “O Ponto de Mutação” nos convida habilmente a fazer uma reflexão sobre os caminhos percorridos pela psicologia na sua “luta” para tornar-se ciência. Estabeleceu-se, assim, o paradigma newtoniano-cartesiano, onde a mesma se firmou, idealizando uma visão de mundo mecânica, determinista e reducionista.
Começamos na esteira de Descartes, que sugeriu diferentes métodos para estudar o corpo e a alma, sendo esta última estudada pelo método introspectivo, enquanto o corpo pelos métodos da ciência natural. A psicologia não seguiu sua sugestão e surgem duas escolas: a estruturalista e a behaviorista. Uma centrada na análise da consciência pela introspecção e a outra no comportamento. Ambas incorporando os conceitos mecanicistas de Newton.
Pouco depois surge a psicanálise, também dentro de uma perspectiva newtoniana, dedica-se ao estudo do inconsciente.
A atualidade nos impõe novos desafios, a idéia de uma nova realidade baseada na inter-relação e interdependência de todos os fenômenos, sejam físicos, biológicos, psicológicos, sociais ou culturais. Segundo Capra, é uma nova instituição que está para surgir, não existindo ainda hoje, uma estrutura que de conta do novo paradigma: uma abordagem holística, compatível com a nova física e com a concepção sistêmica dos organismos vivos.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Reflexão sobre o Filme "O Ponto de Mutação"

O Ponto de Mutação - ponto constante que serve de referencial à mudança. Sem ele tudo se dissolveria em um movimento caótico. Onde está o nosso???
Ele precisa ser estabelecido, o que nos exige a cada momento uma opção e uma decisão, que determina o ponto de referência. Nos encontramos desde o despertar da nossa consciência inseridos em sistemas já estabelecidos de relacionamentos, que por serem tão poderosos, tendem a prevalecer. A questão está em escolher seu próprio ponto de referência e que este coincida com o ponto de referência cósmico (“evoluímos com o Planeta”). E assim, talvez possamos evitar que o mundo criado por nossa própria decisão se destrua ao entrar em conflito com estruturas de relacionamento dominantes. Para isso precisamos estar convictos de que o mundo é um sistema de referências integradas: o cosmos e não o caos.
A vida é relacional, vivemos em relação como uma grande teia. Os acontecimentos se interligam e essa consciência é necessária. Nossos atos não se esgotam em nós.
Jogar um papel no chão pode ter ligação com a bomba atômica, por exemplo. Parece estranho, não? Mas pode tratar-se de um simples sentimento de impotência, onde um papel a mais no chão não fará a menor diferença diante da eminente ameaça da bomba, que pode dizimar a todos nós em instantes.
A holística teoria dos sistemas, pensa o sistema como um todo, uma renúncia a visão cartesiana e cientificista que nos assolou por tanto tempo, nos levando a perder a natureza das coisas. Somos seres interdependentes: dependemos e vivemos uns para os outros. Seres auto-organizáveis, ou seja, nos renovamos sistematicamente para sobreviver e auto-transcendentes, uma tendência natural a transformar-se, criar novas formas.
A criatividade é o que move a evolução, muito mais do que a adaptação ao meio ambiente. Nos transformamos juntos!
Mas ainda somos estrangeiros...afastados do ambiente que carregamos dentro de nós. O que será mais complexo: perceber o sistema ou perceber a nós mesmos?
Estaremos prontos para perceber a menor parte, para nos relacionarmos com nosso pequeno mundo? Conseguimos perceber a pessoa como de fato é, com suas fraquezas, defeitos e qualidades? Este talvez seja o desafio inicial.