A Casa da Beira do Rio
Uma história de subjetivação
Fazia dois anos que Rosa e João estavam no Rio de Janeiro, vinham de uma bucólica cidadezinha do interior onde se conheceram, namoraram e como mandava o figurino casaram-se no final do ano de 2005. De onde vinham traziam ótimas recordações, foram pessoas alegres, divertidas. Moravam, lá em Jaratá, numa casa aconchegante na beira do rio. Ali reuniam amigos, em finais de semana tantas vezes prolongados; longas conversas, boa comida, muitos banhos no rio e passeios de barco. A vida mostrava ares de uma liberdade que aos poucos ameaçava desaparecer.
Três anos após o casamento, pelas exigências do trabalho de Rosa, resolveram mudar-se para o Rio de Janeiro. Imbuídos no espírito de mudança, tentavam não pensar em todas as coisas que deixariam para trás e, sempre que sentavam à luz da lua, no trapiche, ficavam calados... perdidos nas recordações e na vida que deixavam. Já apontavam no horizonte os novos tempos e os desafios que estavam por vir.
Chegaram na “Cidade Maravilhosa” numa manhã de verão, fazia à sombra 40 graus, mas a sensação térmica era de no mínimo 5 graus a mais, um calor sufocante. Foram para um apartamento provisório no encantador bairro do Leblon, de onde até hoje não conseguiram mudar-se. Em pouco tempo a vida mudou, não havia mais tempo para os amigos e nem para as caminhadas matinais à beira-mar. Foram tomados por uma profusão de trabalhos, Rosa dividia-se entre trabalhos em casa, escritório e viagens, tinha dois celulares e um rádio nextel que tocavam sem parar. Toda semana ela ameaçava desfazer-se de pelo menos um, percebendo o quanto aqueles aparelhos a controlavam e tiravam sua privacidade. João, por sua vez, logo entrou no ritmo; profissional da informática arranjou um trabalho que o mantinha na ponte-aérea, pouco parando no Rio de Janeiro.
Certa noite conseguiram encontrar-se em casa, Rosa e João, era um momento raro. Combinaram uma jantinha, a dois, regada a um bom espumante, queriam comemorar o “encontro”. Esvaziaram o tapete, jogaram almofadas, colocaram as músicas que gostavam. Sobre a mesa da sala de jantar dois notebooks ligados! Sim, eles não conseguiam desligar-se do trabalho. Pensavam que sim, afinal só deixariam ali porque alguma coisa poderia acontecer e então eles estariam ali, novamente a postos. Em menos de duas horas o jantar acabou, neste tempo pouco ficaram “jogados”, era um vaivém constante à mesa de jantar, sempre tinham mensagens chegando e elas podiam ser importantes. Fora isso, João estava interessadíssimo no quarto site de relacionamento para o qual tinha sido convidado e obviamente, aceito. A tentação de olhar quem estava ali, quem aceitava ser seu “amigo”, o que falavam dele, o que comentavam dos seus textos era infinita, e logo estavam os dois lá, em frente as suas telas individuais: João relacionando-se e Rosa brigando com um recado que seu computador insistia em dar, avisando que estava com um programa irregular, certo que era da Microsoft, e que tinha dez dias para resolver, uma contagem regressiva que havia começado há dois dias. Ela estava furiosa, sentindo-se invadida.
Não tinham mais férias, nunca mais voltaram a Jaratá, alguns amigos, os mais íntimos, insistiam em manter contato, mas também desanimaram... pouco retorno lhes davam. Não porque não quisessem, mas a vida era corrida demais, o mundo do trabalho estava sempre lá, atento e pouco sobrava para amigos, jantares a dois, conversas e caminhadas. Aos poucos tudo foi ficando para trás e a vida seguia seu ritmo alucinante.
No inverno de 2009 resolveram, por força das circunstâncias, voltar a Jaratá, estavam vendendo a casa na beira do rio.
Combinaram reunir os amigos e fazer uma despedida à altura.
Foi uma festa estranha, Rosa e João, não eram mais as mesmas pessoas, a vida havia produzido mudanças profundas. Todos se divertiram, mas não havia mais intimidade entre eles, a simplicidade não fazia mais parte daquele casal, eles já tinham outros hábitos, outros desejos. Estavam inquietos, sentar no trapiche foi quase um sacrifício de cinco minutos, a vida os chamava, a tecnologia, o futuro.
Venderam a casa, despediram-se já com saudade dos amigos do interior e voltaram calados para a vida que um dia acreditaram ter escolhido.
F I M
Uma história de subjetivação
Fazia dois anos que Rosa e João estavam no Rio de Janeiro, vinham de uma bucólica cidadezinha do interior onde se conheceram, namoraram e como mandava o figurino casaram-se no final do ano de 2005. De onde vinham traziam ótimas recordações, foram pessoas alegres, divertidas. Moravam, lá em Jaratá, numa casa aconchegante na beira do rio. Ali reuniam amigos, em finais de semana tantas vezes prolongados; longas conversas, boa comida, muitos banhos no rio e passeios de barco. A vida mostrava ares de uma liberdade que aos poucos ameaçava desaparecer.
Três anos após o casamento, pelas exigências do trabalho de Rosa, resolveram mudar-se para o Rio de Janeiro. Imbuídos no espírito de mudança, tentavam não pensar em todas as coisas que deixariam para trás e, sempre que sentavam à luz da lua, no trapiche, ficavam calados... perdidos nas recordações e na vida que deixavam. Já apontavam no horizonte os novos tempos e os desafios que estavam por vir.
Chegaram na “Cidade Maravilhosa” numa manhã de verão, fazia à sombra 40 graus, mas a sensação térmica era de no mínimo 5 graus a mais, um calor sufocante. Foram para um apartamento provisório no encantador bairro do Leblon, de onde até hoje não conseguiram mudar-se. Em pouco tempo a vida mudou, não havia mais tempo para os amigos e nem para as caminhadas matinais à beira-mar. Foram tomados por uma profusão de trabalhos, Rosa dividia-se entre trabalhos em casa, escritório e viagens, tinha dois celulares e um rádio nextel que tocavam sem parar. Toda semana ela ameaçava desfazer-se de pelo menos um, percebendo o quanto aqueles aparelhos a controlavam e tiravam sua privacidade. João, por sua vez, logo entrou no ritmo; profissional da informática arranjou um trabalho que o mantinha na ponte-aérea, pouco parando no Rio de Janeiro.
Certa noite conseguiram encontrar-se em casa, Rosa e João, era um momento raro. Combinaram uma jantinha, a dois, regada a um bom espumante, queriam comemorar o “encontro”. Esvaziaram o tapete, jogaram almofadas, colocaram as músicas que gostavam. Sobre a mesa da sala de jantar dois notebooks ligados! Sim, eles não conseguiam desligar-se do trabalho. Pensavam que sim, afinal só deixariam ali porque alguma coisa poderia acontecer e então eles estariam ali, novamente a postos. Em menos de duas horas o jantar acabou, neste tempo pouco ficaram “jogados”, era um vaivém constante à mesa de jantar, sempre tinham mensagens chegando e elas podiam ser importantes. Fora isso, João estava interessadíssimo no quarto site de relacionamento para o qual tinha sido convidado e obviamente, aceito. A tentação de olhar quem estava ali, quem aceitava ser seu “amigo”, o que falavam dele, o que comentavam dos seus textos era infinita, e logo estavam os dois lá, em frente as suas telas individuais: João relacionando-se e Rosa brigando com um recado que seu computador insistia em dar, avisando que estava com um programa irregular, certo que era da Microsoft, e que tinha dez dias para resolver, uma contagem regressiva que havia começado há dois dias. Ela estava furiosa, sentindo-se invadida.
Não tinham mais férias, nunca mais voltaram a Jaratá, alguns amigos, os mais íntimos, insistiam em manter contato, mas também desanimaram... pouco retorno lhes davam. Não porque não quisessem, mas a vida era corrida demais, o mundo do trabalho estava sempre lá, atento e pouco sobrava para amigos, jantares a dois, conversas e caminhadas. Aos poucos tudo foi ficando para trás e a vida seguia seu ritmo alucinante.
No inverno de 2009 resolveram, por força das circunstâncias, voltar a Jaratá, estavam vendendo a casa na beira do rio.
Combinaram reunir os amigos e fazer uma despedida à altura.
Foi uma festa estranha, Rosa e João, não eram mais as mesmas pessoas, a vida havia produzido mudanças profundas. Todos se divertiram, mas não havia mais intimidade entre eles, a simplicidade não fazia mais parte daquele casal, eles já tinham outros hábitos, outros desejos. Estavam inquietos, sentar no trapiche foi quase um sacrifício de cinco minutos, a vida os chamava, a tecnologia, o futuro.
Venderam a casa, despediram-se já com saudade dos amigos do interior e voltaram calados para a vida que um dia acreditaram ter escolhido.
F I M
por Bia Wetzel