"Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro." (Clarice Lispector)

sábado, 31 de agosto de 2013

Amélias e Janaínas

Meu nome é Amélia, dizem que quer dizer sofredora, eu não sei. Vivo neste lugar onde me colocaram, e não sei exatamente quem fez isso, nunca me responderam, talvez nem saibam. Minha vida é simples, todos os dias faço as mesmas coisas, raramente passo a porta. Um dia, vieram aqui umas moças, me observaram e sentiram pena de mim, nem sei por que. Vieram conversar, queriam saber minha história. Que história??? O que é isso? Elas precisaram me explicar. Eu respondi: - Se é isso, eu não tenho história. O Documentário Amélia poderia ser uma entre tantas crianças que foram abandonadas, como Janaína, protagonista do documentário “Procura-se Janaína”. Opa, quiçá tivesse sido protagonista da própria vida... Que vidas são essas que repousam em arquivos empoeirados? Janaína chamava a atenção, segundo aqueles que a conheceram, por ser diferente. Pergunto-me: diferente do que? Porque a diferença nos surpreende, será o desejo de homogeneização? E na ânsia de diagnosticá-la, afinal vivemos na época da psiquiatria orgulhosamente remedicalizada, ficou fácil reduzi-la a um diagnóstico e perder a dimensão humana do outro e de si mesmo. E eis que surge um objeto simbólico, uma boneca de plástico, sem cabelos, com braços que caem. Ela própria, Janaína, não constituída, sem pertencimento, sem história e sem o olhar que a constitui. Queremos saber, O que vão fazer Com as novas invenções Queremos notícia mais séria Sobre a descoberta da antimatéria e suas implicações Na emancipação do homem Das grandes populações Homens pobres das cidades Das estepes dos sertões Queremos saber, Quando vamos ter Raio laser mais barato Queremos, de fato, um relato Retrato mais sério do mistério da luz Luz do disco voador Pra iluminação do homem Tão carente, sofredor Tão perdido na distância Da morada do senhor Queremos saber, Queremos viver Confiantes no futuro Por isso se faz necessário prever Qual o itinerário da ilusão A ilusão do poder Pois se foi permitido ao homem Tantas coisas conhecer É melhor que todos saibam O que pode acontecer Queremos saber, queremos saber Queremos saber, todos queremos saber (Cássia Eller)

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